terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Conto Japonês ou (Zen capitalismo)

Certa manhã de outono, (parece que sempre é outono no Japão) o mestre Yamaha passeava pela planície de Kawazaki. Ao fundo, as montanhas Suzuki erguiam-se imponentes. Ao parar às margens do rio Mitsubishi, percebeu que estava sendo seguido. Voltou-se com a leveza dos mestres do templo de Panasonic encarando seu oponente, um estrangeiro forte e robusto o olhava com expressão ameaçadora. Era Davidson, Harley Davidson, seu eterno rival com o qual já havia travado inúmeras batalhas.

Mas desta vez, não viera só. Ao seu lado estavam os também ameaçadores Chrysler e Ford.
Em segundos o grupo ruidoso desferiu um ataque feroz sobre o velho mestre, que girando com habilidade, desviava de seus golpes.

A crueza da luta logo atraiu a atenção da imprensa, que usando câmeras JVC e Sony transmitiam para o mundo imagens em HDTV; Todos os canais por assinatura (inclusive a Sky) mandaram equipes. Até os sons dos metais em atrito foi gravado para a posteridade, sendo disponibilizado em MD, CD, K7 e em formato mp3 para a internet.

Em pouco tempo, todo o mundo estava ligado na batalha. Crianças na Namíbia assistiam na TV, enquanto senhoras Portorriquenhas acessavam o site que transmitia online a contenda. Chats e canais de discussão foram abertos para abordar o assunto do século.

A ABC, temendo a NBC e a CNN, aliou-se à BBC tentando obter os direitos exclusivos da transmissão. Teve então início outra batalha, pois a Twenty Century Fox, já havia contratado 15 biógrafos, na esperança de comprar os direitos da luta, se associara à Warner, para lançar o filme baseado na história real da que parecia ser a maior luta da humanidade.

Enquanto isso, o Master Card ergueu muralhas em volta do local da luta, cobrando ingressos dos turistas que vinham de todos os cantos do mundo (via American Air-Lines e PAN AM, claro) se acotovelavam nas arquibancadas. Galões de Diet Coke foram usados para aplacar a sede das pessoas, que tão interessadas na batalha, ingeriam toneladas de Big Macs.

A essa altura, os relógios Tag Heuer marcavam vários dias de batalha, e os enormes alto-falantes Pioneer anunciavam outro round no oferecimento da Nike.
De repente um silêncio colossal chama a atenção dos lutadores. Ninguém mais estava em volta assistindo o evento.

Só se ouvia o vento que soprando leve, arrastava pelas arquibancadas embalagens aluminizadas de Chips. Olharam em volta. Nem mesmo o dirigível da Goodyear ou os outdoors da Hugo Boss estavam mais lá. Decepcionados com a humanidade que os abandonara, caminharam em direção ao pôr-do-sol.

Poucos passos depois, chegava um e-mail nos seus celulares Nokia: Todos tinham ido assistir ao lançamento do Parque dos Dinossauros XVII- o regresso, do Spielberg.

Moral da história:
“Mais valem pontos no IBOPE do que pontos na cara”

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Rebelião

- Por favor não se aproxime.

- Como assim? Eu preciso trabalhar. Me dá licença por favor, meu filho.

- Meu senhor, eu sinto muito.

- Mas o que está acontecendo aqui?

- O senhor não soube?

- Olha, eu preciso trabalhar, acordei cedo, atravessei a cidade toda pra vir pra cá e agora você me diz que simplesmente eu não posso iniciar?

- Infelizmente não, por favor não insista.

- Mas é só isso? Simplesmente não posso fazer nada hoje? Assim sem nenhuma explicação?

- O de sempre. Erro de paginação, esvaziamento da pilha, falha no Kernel32.dll

- É um absurdo! Será que nem pressionando F8?

-Fique calmo. Um relatório de erros foi enviado e em breve as providências serão tomadas.

- Vocês sempre dizem a mesma coisa!








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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Gramática

Mas-que-perfeita é a vida...
Você sempre foi muito intransitiva.
Eu passivo, sempre subordinado à sua vontade.
Hoje sou um sujeito composto de muitas mágoas.

Meu futuro pode até ser indeterminado,
mas com certeza você já é passado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O homen que sabia demais.

Um dia desses, presenciei uma conversa no mínimo esquisita. O local era um barzinho normal como todos em final de tarde: mesas na calçada, movimento intenso. Pessoas que iam para suas casas apressadas, se confundiam com as pessoas que procuravam a tranqüilidade (tranqüilidade!?!) para um happy-hour.

Havia dois sujeitos de meia idade, com cabelos grisalhos, aparência pacata. Mas só a aparência, pois em dado momento, a conversa deles foi tomando rumos de uma inflamada discussão.

Não que eu tivesse alguma coisa a ver com o assunto deles, mas como também não tinha nada pra fazer, fiquei observando a conversa surrealista dos dois.

- O filho de Zandor nos Herculóides?

- Dorno.

- O nome da macaca do Tarzan em desenho animado?

- Nikima.

- Quem era o companheiro da Tartaruga Touchê?

- O urso Dum-dum.

- E qual é o nome do guarda do Manda-chuva?

- Fácil: guarda Belo!

- Ah, é? E o nome de todos os gatos?

- Gênio, Espeto, Bacana, Chuchu e Batatinha...

Não ouvia esses nomes há pelo menos 20 anos. Não sabia se admirava a capacidade deles em guardar detalhes tão corriqueiros, ou a minha incapacidade de fixar informações. Mas o certo é que o “papo” foi se tornando cada vez mais febril, onde os dois ficavam mais alterados. Em poucos minutos, os rostos já estavam vermelhos e as perguntas e respostas que no início, eram discretas, já podiam ser ouvidas por todo o ambiente.

- O nome do filho da Linda Hamiltom em “O Exterminador do Futuro”?

- John Connor!

- O chefe das Panteras?

- O chefão mesmo era o Charlie, mas só víamos o Bossley.

- O nome do submarino de “Viagem ao fundo do mar”?

- U.S.S. Sea-view!

Mas antes que chegassem às vias de fato, um deles se levantou, colocou a mão no ombro do outro, com expressão de superioridade e perguntou com a voz suave: “qual o nome da cacatua do Baretta"?

O sujeito ficou em silêncio, enquanto o outro acenava para o garçom pedindo a conta. O primeiro se levantou e foi saindo, enquanto o outro (de olhos fechados) parecia um goleiro que por pouco pegou um pênalty.

Mas então duas perguntas ficaram no ar: A primeira é como as pessoas dedicam tanto espaço na memória pra detalhes de seriados e desenhos de TV já mortos? E a última: qual é o bendito nome da cacatua do Baretta??


Pirata

“A hundred shall serve - the best of the brave,
And the chief of a thousand shall kneel as thy slave,
And thou shalt reign queen, and thy empire shall last
Till the black flag by inches, is torn from the mast.”

Há anos eu sonho com um navio fantasma.

Sempre o mesmo sonho: um céu cinzento e escuro, uma noite fria e oculta. Sempre o mesmo mar cor de chumbo, liso e duro como mármore. Tão escuros o céu e o mar, que só a silhueta enorme do navio é capaz de separar um do outro.

Deslizando lento sobre esse mármore, o navio não causa uma só ruga na superfície de água petrificada. Uma bandeira negra (mesmo sem vento) tremula sobre o mastro principal. Suas velas, esfarrapadas e escuras acompanham esse vento inerte.

À bombordo, no convés, vultos estranhos se amontoam. Na medida em que o navio se aproxima, esses vultos se tornam mais visíveis e não menos assustadores.

Mas noite passada, quando sonhava esse velho sonho repetido, o navio se aproximou um pouco mais do que de costume e eu pude ver seu capitão. Um homem alto e velho (talvez tivesse a idade do próprio mar), com roupas negras e semblante escuro. De pé junto ao costado ele bradava indizíveis palavras que alvoroçavam ainda mais sua tripulação de fantasmas: A cada grito seu, podia-se ouvir o tinir das espadas e correntes.

Depois de um desses gritos, quando ele se voltou para minha direção, pude ver por fim o seu rosto magro e enrugado. Suas sobrancelhas estavam arqueadas aumentando sua expressão de fúria. Mas havia algo de familiar naqueles olhos de cólera.

Sim, só ontem eu percebi que os olhos daquele corsário sanguinário eram exatamente os meus! Todos esses anos eu fui o meu único fantasma, a assombrar os sete mares da minha vida.

Agora estou mais tranqüilo, como o mesmo mar de chumbo que envolve meu navio. Agora sei quem sou e não me arrependo de nenhum saque ou abordagem que cometi nesses longos anos de pirataria.

Agora, passo os dias esperando a noite chegar, para que eu possa, mais uma vez a bordo de meu navio fantasma, varrer os mares do sono.

Mundo Animal

Tive chefes que me trataram como um cachorro.
Tive namoradas muito gatas.
Tive amigos sangue-sugas
Tive um colega que era uma toupeira.
Tive pais corujas.
Ouvi muito Steppenwolf.
Dormi com piranhas.
Paguei o pato.
Sou de Leão com ascendente em touro.
Mas nesse ano do rato,
me sinto um inseto...

Metalinguagem

Escrevo o que não me atrevo
Mostro assim o monstro
externo o mundo interno: inferno
Bolo um tipo de pele, escondo o lobo de pêlo
Quem vê por fora, não sabe o dentro.
Quem lê o dentro se apavora.
Descrevo
Morales, Evo
Sarajevo
Escrevo o que não me
Atrevo