And the chief of a thousand shall kneel as thy slave,
And thou shalt reign queen, and thy empire shall last
Till the black flag by inches, is torn from the mast.”
Há anos eu sonho com um navio fantasma.
Sempre o mesmo sonho: um céu cinzento e escuro, uma noite fria e oculta. Sempre o mesmo mar cor de chumbo, liso e duro como mármore. Tão escuros o céu e o mar, que só a silhueta enorme do navio é capaz de separar um do outro.
Deslizando lento sobre esse mármore, o navio não causa uma só ruga na superfície de água petrificada. Uma bandeira negra (mesmo sem vento) tremula sobre o mastro principal. Suas velas, esfarrapadas e escuras acompanham esse vento inerte.
À bombordo, no convés, vultos estranhos se amontoam. Na medida em que o navio se aproxima, esses vultos se tornam mais visíveis e não menos assustadores.
Mas noite passada, quando sonhava esse velho sonho repetido, o navio se aproximou um pouco mais do que de costume e eu pude ver seu capitão. Um homem alto e velho (talvez tivesse a idade do próprio mar), com roupas negras e semblante escuro. De pé junto ao costado ele bradava indizíveis palavras que alvoroçavam ainda mais sua tripulação de fantasmas: A cada grito seu, podia-se ouvir o tinir das espadas e correntes.
Depois de um desses gritos, quando ele se voltou para minha direção, pude ver por fim o seu rosto magro e enrugado. Suas sobrancelhas estavam arqueadas aumentando sua expressão de fúria. Mas havia algo de familiar naqueles olhos de cólera.
Sim, só ontem eu percebi que os olhos daquele corsário sanguinário eram exatamente os meus! Todos esses anos eu fui o meu único fantasma, a assombrar os sete mares da minha vida.
Agora estou mais tranqüilo, como o mesmo mar de chumbo que envolve meu navio. Agora sei quem sou e não me arrependo de nenhum saque ou abordagem que cometi nesses longos anos de pirataria.
Agora, passo os dias esperando a noite chegar, para que eu possa, mais uma vez a bordo de meu navio fantasma, varrer os mares do sono.

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